– Do Senso de Humor

Bom dia, amigos.

Considerado uma estupenda obra de arte, o livro A Impotância de Viver, de Lin Yutang, me faz pensar nas pessoas que eu amo, em especial as mamas queridas que eu tenho. Tia, mãe de verdade, sogra, cunhada e irmãs mais velhas… Me faz pensar porque é um livro completo, amoroso como elas.Daqueles que abrangem a vida em seu sentido mais puro e natural.

O capítulo – Do Senso de Humor, é fantástico. Extenso, eu não quis resumir, nem cortar trechos e, como todo o livro que segue, é realmente de uma incrível sabedoria e gostoso de ler, traduzido por nada melhor que Mário Quintana.

– DO SENSO DE HUMOR

Duvido que haja sido inteiramente apreciada a importância do humor, ou a possibilidade de seu emprego para modificar a qualidade e o caráter de toda a nossa vida cultural – o papel do humor na política, na escola e na vida. Pois sua função é química, mais que física; altera a contextura básica de nosso pensamento e experiência. Podemos dar por assentada a sua importância na vida nacional. A incapacidade de rir custou ao ex-Kaiser Guilherme II um império, ou, como diria um yankee, custou um bilhão de dólares ao povo alemão. Guilherme de Hohenzollern podia rir provavelmente  em sua vida privada, mas sempre parecia terrivelmente impressionante com seus bigodes em riste na vida política, como se estivesse sempre furioso com alguém. E logo a qualidade do seu riso e as coisas por que ria – riso pela vitória, pelo sucesso, por sobrepujar-se aos outros – foram fatores igualmente importantes para determinar a sorte de sua vida. A Alemanha perdeu a Guerra porque Guilherme de Hohenzollern não sabia quando rir, nem por que rir. Seus sonhos não eram contrabalançados pelo riso.

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Parece-me que o pior comentário que se pode fazer sobre as ditaduras é que os presidentes das democracias podem rir, ao passo que os ditadores parecem sempre demasiado sérios: mandíbula proeminente, mento resoluto e o lábio inferior puxado para fora, como se estivessem fazendo algo terrivelmente importante e o mundo não se pudesse salvar senão por eles. Franklin Roosevelt sorri amiúde, em público, o que é muito bom para ele e para o povo norte-americano, que quer ver sorrir seu presidente. Mas onde estão os sorrisos dos ditadores europeus? Ou seus povos não querem vê-los sorrir? Ou será que na verdade devem parecer atemorizados, ou sumamente dignos, ou aborrecidos, ou, em todo caso, terrrivelmente sérios, para poder manter-se nas selas em que cavalgam? O melhor que li aceca de Hitler é que se mantém com inteira naturalidade na vida privada. Isto, relativamente, restaura às vezes minha confiança nele. Mas alguma coisa deve andar mal nas ditaduras, se os ditadores acham que têm que parecer incomodados ou, quando não, fanfarrões. Não, este modo de ser não está nada bem.

Não estamos fazendo ociosas digressões sobre sorrisos de ditadores. É muito grave que os nossos governantes não sorriam, pois eles têm todos os canhões. Por outro lado, a tremenda importância do humor na política só pode ser compreendida quando imaginamos um mundo de goverantes humoristas. Enviemos, por exemplo, cinco ou seis dos melhores humoristas do mundo a uma conferência internacional, outorgando-lhes poderes plenipotenciários de autocratas, e o mundo se salvará. Como o humor marcha necessariamente de mãos dadas com o bom-senso e o espírito mais equilibrado e mais são. Que Shaw represente a Irlanda, Stephen Leacock o Canadá; G. K. Chesterton, morreu, mas P. G. Wodehouse ou Aldous Huxley podem representar a Inglaterra. Will Rogers morreu; daria um bom diplomata na representação dos Estados Unidos; podemos pôr em seu lugar Robert Benchley ou Heywood Broun. Outros haverá, da Itália e França e Alemanha e Rússia. Mandemos esta gente, e vejamos se serão capazes de desencadear uma Guerra européia, por mais que o intentem. Pode-se acaso imaginar esse grupo de diplomatas internacionais iniciando uma Guerra, ou conspirando sequer por uma Guerra? O senso de humor veda-o. Todos os povos estão demasiado sérios e meio loucos quando declaram Guerra a outros povos, tal a segurança que têm de estar com a razão e de que Deus está de seu lado. Os humoristas,, mais dotados de bom-senso, não podem pensar assim. Já vereis  que George Bernard Shaw clama que a Irlanda não tem razão, e um caricaturista de Berlim sustenta que o erra está do lado da Alemanha, e Heywood Broun afirma que a mor parte dos equívocos corresponde aos Estados Unidos, ao passo que Stephen Leacock, na presidência, pede que universalmente desculpemos a humanidade e gentilmente nos recorda que, em material de estupidez, e tolice, nenhuma nação pode levar a palma a outra. Como, em nome do humor, vamos iniciar uma Guerra em tais condições? Os ambiciosos, os capazes, os hábeis, os calculistas, os espertos, os orgulhosos, os patriotas em excesso, os inpirados pelo desejo de “servir” a humanidade, os que têm de fazer uma “carreira” e causar uma “impressão” ao mundo, os que esperam olhar um dia o mundo com os olhos de uma figura de bronze montada sobre um cavalo de bronze em alguma praça. O curioso é que os capazes, os hábeis e os ambiciosos e orgulhosos, são ao mesmo tempo os mais covardes e confusos, pois carecem da coragem, profundeza e sutileza dos humoristas. Estão sempre dedicados a trivialidades, ao passo que os humoristas, com o seu maior descortino de espírito, podem pensar em coisas maiores. Conforme andam as coisas, um diplomata que não fala cochichando, nem parece muito assustado e composto e cauteloso, não é um diplomata… Mas nem é preciso reunir uma conferência de humoristas internacionais para salvar o mundo. Em todos nós há uma suficiente quantidade deste desejável ingrediente que se chama senso de humor. Toda vez que a Europa pareça estar na iminência de uma Guerra catastrófica, podemos ainda mandar para conferências os nossos piores diplomatas, os mais experientes e seguros de si, os mais ambiciosos, os mais cochichadores, os mais corretos e devidamente cautelosos, e mesmo os mais ansiosos por “servir” a humanidade. Se, no início de cada sessão da manhã e da tarde, se dedicarem dez minutos à exibição de um filme de Mickey Mouse e forem obrigados todos os diplomatas a comparecer, assim se poderá evitar todavia qualquer Guerra.

Isto é o que concebo como função química do humor: transmutar o caráter de nosso pensamentos. Creio, na verdade, que chega à própria raíz da cultura, e abre um caminho para chegar à Idade Razoável no mundo humano do futuro. Para a humanidade, não posso conceber ideal maior do que o da idade Razoável. Pois isso, afinal, é a única coisa importante: o advento de homens imbuídos de mais razão, com maior predomínio do bom-senso, com pensamentos simples, um temperamento aprazível e descortino e cultura. O mundo ideal para a humanidade não será um mundo racional, nem um mundo perfeito em algum sentido, mas um mundo em que se percebam claramente as imperfeições e se resolvam razoalvelmente as disputas. Para a humanidade. isto é francamente o melhor que podemos esperar, o mais nobre sonho que razoavelmente possamos supor realizável. Isto parece implicar várias coisas: simplicidade no pensamento, alegria na filosofia e um sutil senso comum, que tornarão possível essa razoável cultura. Mas sucede que o sutil senso comum, alegria na filosofia e a singeleza no pensamento são características do humor e devem nascer dele.

É difícil imaginar esta espécie de novo mundo, de tal maneira é diferente o nosso mundo atual. Em conjunto, nossa vida é demasiado complexa, nossos estudos demasiados sérios, nossa filosofia demasiado sombria; e nossos pensamentos e estudos fazem com que o mundo presente seja tão desgraçado.

Deve dar-se por assentado que a simplicidade de vida e pensamento é o mais alto e mais sadio ideal da civilização e da cultura, que, quando uma civilização perde a simplicidade e os sofisticados não abandonam a sofisticação, a civilização cada vez mais se perturba e degenera. O homem, converte-se então em escravo das idéias, pensamentos e ambições e sistemas sociais que são seu produto. A humanidade, sobrecarregada com esse peso de idéias, ambições e sistemas sociais, parece incapazde elevar-se acima dele. Felizmente, contudo, há no espírito humano um poder que pode transceder todas essas idéias, pensamentos e ambições, e tratá-los com um sorriso, e esse poder é a sutileza do humorista. Os humoristas manejam os pensamentos e as idéias como campeões de golfe ou de bilhar manejam seus tacos, como os cowboys manejam seus laços. Há neles uma facilidade, uma segurança, uma leveza de toque que provém da maestria. Afinal, só o que maneja levemente as suas idéias é senhor das suas idéias, e só o que é senhor de suas idéias não se vê escravizado por elas. A seriedade, enfim, é apenas um sinal de esforço, e o esforço é um sinal de imperfeita maestria. Um escritor sério sente-se pesado e a contragosto no reino das idéias, como um novo rico na sociedade. É sério, porque não chegou a sentir-se a gosto na companhia das suas idéias.

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A simplicidade é, pois, paradoxalmente, o signo externo e o símbolo da profundidade do pensamento. Parece-me que a simplicidade é o mais difícil de conseguir no estudo e na literatura. Muito difícil é a clareza de pensamento e, contudo, só quando o pensamento se torna claro, faz-se possível a simplicidade. Quando vemos um escritor a lutar com suas idéias, podemos estar certos de que as suas idéias é que estão lutando com ele. Isto é demonstrado pelo fato comum de que as conferências de um jovem adjunto, recém-graduado com altas notas, são em geral abtrusas e complicadas, e que a verdadeira simplicidade de pensamento e facilidade de expressão só se encontram nas palavras dos professores mais velhos. Quando um jovem professor não fala em linguagem pedantesca, é positivamente brilhante, e muito se pode esperar dele. O progresso que vai da tecnologia à simplicidade, do especialista ao pensador, é essencialmente um processo de digestão do conhecimento, um processo que comparo literalmente ao metabolismo. Nenhum estudioso culto pode apresentar-nos o seu especializado conhecimento em terrenos simples e humanos antes de haver digerido por sua parte esse conhecimento e have-lo relacionado com suas observações da vida. Entre as horas de sua árdua pesquisa de conhecimento (digamos o conhecimento psicológico de William James), entendo que haverá muitas “pausas que refrescam”,  como uma bebida fresca após uma viagem longa e fatigosa. Durante esta pausa, mais de um epecialista verdadeiramente humano terá feito a si próprio esta importante pergunta: “De que diabo estou falando?” A simplicidade pressupõe digestão e também madureza: à medida que envelhecemos, nossos pensamentos se tornam mais claros, vamos podando os aspectos insignificantes e acaso falsos de uma questão, que cessam de preocupar-nos, as idéias tomam formas mais definidas, e longas séries de pensamentos gradualmente se ajustam numa fórmula conveniente que se apresenta nalguma Linda manhã, e essa verdadeira luminosidade do conhecimento se chama sabedoria.

Já não há sentimento de esforço, e a verdade se torna fácil de entender porque passa a ser clara, e o leitor alcança o supremo prazer ao sentir que a própria verdade é simples e a sua formulação natural. Essa naturalidade de pensamento e estilo, que tanto admiram os poetas e críticos chineses, é amiúde considerada como processo de um desenvolvimento que gradualmente amadurece. Quando falamos da crescente maturescência da prosa de Su Tungp`o, dizemos que se acercou gradualmente da naturalidade: um estilo que se foi despojando do seu juvenil amor à pompa, à pedanteria, ao virtuosismo e ao exibicionismo literário.

É natural que o senso de humor nutra esta simplicidade de pensamento. Em geral, um humorista mantém contato mais estreito com os fatos, ao passo que um teórico convive mais com as idéias, e só quando tratamos com idéias é que se tornam incrivelmente complexos os nossos pensamentos. O humorista, por seu lado, tem relâmpagos de senso comum ou de engenho, que mostram, com realidade e velocidade de raio, a contradição de nossas idéias e assim se simplificam muito as coisas. O contato constante com a realidade dá ao humorista um espécie de espírito de richochete, e também leveza e sutileza. Todas as formas de pose, de aplicado contra-senso, de estupidez acadêmica ou de pretensão social, são postas no olho da rua, cortês mas eficientemente. O homem se torna sábio porque se torna sutil e engenhoso. Tudo é simples. Tudo é claro. Por este motivo é que acredito que um espírito são e razoável, caracterizado pela simplicidade na vida e no pensamento, só pode ser conseguido quando há predomínio do humor.

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