Posso estar enganado, mas isso aqui é leite de baleia!

“Posso estar enganado, mas isso aqui é leite de baleia.” – repeti a frase silenciosamente dentro do mar. No surf não rola muito bate-papo, pelo menos eu geralmente estou sozinho e, quieto, faço contato direto com a natureza.

A comunicação naquela sessão de surf na praia de Ibiraquera havia sido pouca. Leves cumprimentos entre amigos de antes, e um bate-boca um tanto cômico entre um cara que vinha remando na preferência e por isso gritou passagem, e o outro cara que se queimou por causa do grito. “Vai gritar na tua área” de cá, e “tu não manda nada aqui” de lá, até que o primeiro deu fim na discussão, trazendo a questão para as vias de fato. “Vamos ver então quem manda” – através do surf.

Achei aquilo tudo muito cômico, especialmente pelo fim que estava agora em cena, com os dois remando furiosamente para o fundo, travando um verdadeiro duelo de surf. Não sei dizer como a coisa terminou, até porque eu estava prestando atenção em outras coisas, ou pelo menos tentando.

Os pássaros faziam da ilha de Ibiraquera um ponto de referência, para observação e potencialmente para nidificação. A sempre notável presença do gavião-tesoura ao longe sobrevoando a lagoa. Houve um momento em que o sol saiu, as ondas alinharam e o espelho de água se tornou picado em multi cores, fazendo surgir uma plena sensação de felicidade.

De vez em quando, de relance, do topo da ondulação, achei que via uma coisa preta na visão periférica. Não pensei mais sobre isso, até que vi passar lentamente atrás das ondas uma barbatana pontuda.

Adoro a presença dos golfinhos, e pensei em pesquisar sobre barbatanas, para identificá-los melhor, porque aquela ali descrevia um arco côncavo bem peculiar na parte traseira.

Foi só então que vi as baleias. Uma ficava parada como uma lage de rocha negra na superfície. O curioso é que as cracas crustáceas fazem ela ficar ainda mais parecida com uma pedra. Havia também um filhote submerso e que pouco aparecia.

Reparei então em uma embarcação que estava parada um pouco mais ao fundo, era de turistas observando baleias. Já tinha visto placas de “whale watching” na região, mas nunca tinha visto uma embarcação em atividade.

Bem, preciso também se fazer menção sobre a qualidade das ondas que estavam quebrando. Séries de ondas grandes e de fartas paredes progrediam na diagonal, carregando consigo jovens apaixonados fazendo juras de amor ao esporte ao passar deslizando.

E neste vai e vem, o mar trouxe uma espuma branca e grossa. Eu até duvidei do que suspeitei, mas aos poucos pude constar que sim. Represando um pouco de espuma com as mãos e os braços, achei justo afirmar, e o fiz, repetidamente e em silêncio:

“Posso estar enganado, mas isso aqui é leite de baleia!”

Haruo.

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2 comentários sobre “Posso estar enganado, mas isso aqui é leite de baleia!

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